quarta-feira, dezembro 03, 2008

Novembro de 2008 - Chuvas

Haverá uma mansa chuva por nove meses, e ela vai tomar conta do destino dos homens, será em toda Terra, todas as nações conhecerão suas águas, não haverá um só minuto de trégua para essa grande monção dos deuses. Começará singela a partir da vontade de um menino-índio, nas praias fluviais de um amazonas desconhecido, as águas dessas nuvens irão preencher cidades aos poucos, os ovários fecundados na noite anterior darão filhos antes do último dia, e até lá terá se notado o fim dos bombons de nozes, dos passeios às praças, haverá no entanto, tempo para pegar o ônibus, para mandar a carta, para viajar de avião sobre as nuvens pesadas, chegar até o teu romance e pedir perdão, ou então uma chance de se conhecer, haverá no entanto pouco tempo para fazer mais que isso, e os humanos restarão entre as imensas lagoas nascidas do terceiro mês, do quarto haverá mares, e do quinto oceanos onde estavam cidades. Nos prédios mais altos vão resistir os humanos ilhados, selecionados pela força motriz de seus interesses acima do essencial, das mortes aos bilhões haverá apenas os vivos em amor, os enamorados entre si farão de tudo para salvar seu amado, e a humanidade se revelará diante de si, ela descobrirá tarde seu significado, depois das lavouras afogadas, dos templos submersos, das bibliotecas encharcadas, dos sonhos dispersos, o homem então ganha a chance de se explicar quando vê engolidos pela grande chuva seu futuro e passado, e nas mãos carinhosas de quem lhe salvar descobriremos que todos só anseiam por um fim: ter um amor do lado.

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2 Comentários:

Blogger Paulo Gomes disse...

Seu blog é excelente, tem uma qualidade intelectual muito elevada. Diferentimente dos "lixos" que encontramos por ai na NET.
Parabens, acaba de ganhar mais um leitor de seu blog.
Paulo Gomes (Engol).

4:26 PM  
Blogger Analuka disse...

Amo azuis.Vim conhecer AZUL CUBANO. Descobri textos bem tecidos, azulados, suaves, sensíveis, de uma alma enamorada pela vida e pelas sutilezas... Voltarei outras vezes, para recolher mais um pouco desta poesia líquida... Abraços alados!

6:35 PM  

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